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Empréstimo ou doação

Luis Fernando Verissimo

- Não te mete, João.

Foi o conselho que Bel, a mulher de João, deu quando João disse que ia contar ao Gerson que vira sua mulher, Mila, agarrada com outro homem numa mesa de bar, no fundo, no escurinho.

- Não te mete, João.

- Mas Bel, no fundo, no escurinho.

- Não te mete.

- Agarrada, Bel!

Não adiantou Bel argumentar que podia ser um parente. Um primo. Alguém que a Mila não via há muito tempo.

- Então era há muito tempo mesmo - disse João. - Se beijavam como se não se vissem há vinte anos. Trinta. Na boca, Bel. E a mão dele na coxa dela. Por baixo da saia. Se era parente, era parente muito próximo.

- Você viu a mão dele na coxa dela?

- Não vi mas deduzi. A mão não estava à vista. A mão só aparecia para...

- Espera um pouquinho. Quanto tempo você ficou espiando a Mila?

- Eu não estava espiando. Não havia como não ver.

- Você disse que estava escuro. Podia não ser a Mila.

- Era a Mila.

- E se era só alguém parecido? Você conta para o Gerson, eles brigam, talvez até se matem, e você estava enganado, não era a Mila. E daí?

- Tenho certeza que era a Mila, mulher do Gerson. E tenho que contar para o meu melhor amigo. Ele faria o mesmo por mim.

Não adiantou Bel argumentar que Gerson podia não acreditar nele. Ele acreditaria se o Gerson lhe contasse que vira ela, Bel, num bar, agarrada com outro? João respondeu que não acreditaria porque sabia a mulher que tinha. E que o que iria dizer ao Gerson era justamente isso: o Gerson não sabia a mulher que tinha. O Gerson precisava saber a mulher que tinha. Não adiantou Bel argumentar que Gerson podia muito bem perdoar a Mila e brigar com o João. Que o João estava pondo em risco sua amizade, além da vida da Mila. Que era melhor para todo o mundo o João não se meter.

Mas João se meteu.

flor

João escolheu a sauna. Por alguma razão, achou que seria mais fácil se os dois estivessem nus. Faziam sauna juntos todas as terças, quando havia menos gente. Pouca gente por perto, os dois reduzidos a apenas isso, dois animais amigos, suando lado a lado. Perfeito. Seria na sauna da terça. João decorou sua fala. O tema seria: a Mila não te merece, você não merece uma mulher como a Mila. Mas João nem conseguiu completar a primeira frase - "Meu amigo, preciso te contar..." - e foi interrompido pelo Gerson, que agarrou seu braço.

- Meu amigo, preciso te contar uma coisa - disse Gerson.

E Gerson despejou o drama que estava vivendo. João não sabia, talvez desconfiasse, mas agora ia saber. Ele, Gerson, estava arruinado. Perdera tudo. Não tinha a quem recorrer. Vendera todo o seu patrimônio, mas as dívidas só aumentavam. Recorrera ao patrimônio da Mila, mas não fora o suficiente. Restava uma saída. O crápula do Jailson, seu primo. O que vivia dando em cima da Mila. O crápula tinha dinheiro. O crápula poderia salvá-lo. Mas para isso, era preciso que a própria Mila pedisse. Que a Mila se encontrasse com o crápula e negociasse o empréstimo. Ou a doação, dependendo de como se desenrolasse a negociação. A princípio, Mila resistira. Tinha nojo do Jailson. Nojo. Mas a isto nos impele este sistema asqueroso, choramingou Gerson, quase encostando a testa no ombro suado do perplexo João. A isto nos leva o dinheiro, a fraqueza humana e uma alma enegrecida pela cupidez. Implorei a Mila para que fosse ter com o crápula e conseguisse o dinheiro. Fui mais crápula do que o crápula.

- E ela foi? - perguntou João.

- Foi. Por amor a mim, foi.

- Empréstimo ou doação?

Gerson mal conseguiu falar. Finalmente, com um soluço, disse:

- Doação. Doação!

E:

- Eu não mereço uma mulher assim!

flor

Bel estranhou o laconismo do João, quando este chegou em casa.

- Como é? Contou?

- Ele já sabia.

- Quem era o outro?

- Um primo.

- Um primo? Mas...

João não quis mais falar no assunto. Durante o jantar, ficou pensando: o que a Bel faria por mim, se eu fosse crápula o bastante? A Mila não merece o Gerson. E eu mereço essa mulher? Mereceria a Mila? Concluiu: nenhum homem sabe a mulher que tem, até não merecê-la mais.

- O que você está me olhando desse jeito?

- Nada.


Domingo, 18 de julho de 2004.



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